dezembro 10, 2012

Dia Internacional dos Direitos Humanos

No dia 10 de dezembro de 1948, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas adotou e proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Aqui deixo assinalada esta data, tantas vezes esquecida, todos os dias! ilustrada com o video do "Patinho feio".

Artigo 1º:

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
 
 

novembro 27, 2012

Poesia de Fernando Pessoa

Podem fazer o download gratuito de algumas das obras de Fernando Pessoa, AQUI

Capa da Revista Tabacaria, nº 5, Inverno de 1997

novembro 26, 2012

Para ler e ...refletir

Do Sermão de Santo Antônio aos Peixes, V Parte

O Polvo:

Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo: e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro.
 
De Sophia de Mello Breyner, um poema:
 
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
 
(sublinhados meus)

outubro 30, 2012

Mar AMar

Do padre António Vieira, Sermão de santo António aos peixes, I Parte:

 "O mar está tão perto que bem me ouvirão."

De Manuel Alegre, este lindíssimo poema:

Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

outubro 29, 2012

O sermão de santo António aos peixes: análise textual

Os excertos do Sermão estão em itálico e foram retirados da III Parte, Confirmação.


O padre António Vieira louva as "virtudes" dos peixes como alegoria dos "defeitos" dos homens, isto é, para fazer uma crítica social muito violenta.
---Mas para que da admiração de uma tão grande virtude vossa, passemos ao louvor ou inveja de outra não menor, admirável é igualmente a qualidade daquele outro peixezinho, a que os latinos chamaram torpedo. Ambos estes peixes conhecemos cá mais de fama que de vista; mas isto têm as virtudes grandes, que quanto são maiores, mais se escondem.
.Este período inicia-se com um conector de discurso, conjunção adversativa, «mas», para estabelecer uma oposição de sentido com o que escreveu anteriormente. Neste caso, refere-se ao torpedo, começando por fazer uma descrição, principalmente do seu "comportamento": o diminutivo peixezinho para enfatizar o pequeno porte do animal e para daí resultar mais óbvio o "poder" das suas "virtudes". Por outro lado, a insinuação irónica, resultante da aparente antítese de que quem maior é e quem mais virtude tem, menos precisa de se mostrar: «têm as virtudes grandes, que quanto são maiores, mais se escondem.», numa clara alusão à arrogância dos homens que procedem de maneira oposta. Além disso, uma referência precisa à realidade, através do advérbio de lugar «cá», para completar a descrição do peixe: é pouco conhecido «cá», no Brasil, onde o Padre se encontra a pregar este Sermão.
---Está o pescador com a cana na mão, o anzol no fundo e a boia sobre a água, e em lhe picando na isca o torpedo começa a lhe tremer o braço. Pode haver maior, mais breve e mais admirável efeito? De maneira que, num momento, passa a virtude do peixezinho, da boca ao anzol, do anzol à linha, da linha à cana e da cana ao braço do pescador. 
Veja-se a gradação usada para descrever o efeito de choque elétrico produzido pelo peixe: « da boca ao anzol, do anzol à linha,....» Também a enumeração e o assíndeto, com o uso sucessivo das vírgulas. E é a resposta à interrogação retórica enunciada antes, interrogação que, através da adjectivação utilizada: «maior, mais breve e mais admirável», tornava a resposta óbvia (também uma gradação).
Para se referir ao choque elétrico, utiliza a metáfora «virtude», porque é nesse sentido que o padre vai usar a sua argumentação, para persuadir o seu auditório.
---Com muita razão disse que este vosso louvor o havia de referir com inveja. Quem dera aos pescadores do nosso elemento, ou quem lhes pusera esta qualidade tremente, em tudo o que pescam na terra! Muito pescam, mas não me espanto do muito; o que me espanta é que pesquem tanto e que tremam tão pouco. Tanto pescar e tão pouco tremer!
E aqui está a conclusão das premissas com que argumenta a favor da sua tese: os«pescadores do nosso elemento», isto é, da terra, e não do elemento água, "pescam muito e tremem pouco". Repare-se, então, na alegoria, através de várias metáforas: pescador que pesca--»homens que roubam; e pouco tremem, isto é, não têm problemas de consciência. Conclui este período com uma frase exclamativa breve, sem verbo, para a tornar mais incisiva, e que contribui para conferir um ritmo mais vivo e expressivo ao sentimento de indignação que pretende comunicar a quem o escuta. Também o uso da antítese, através do uso dos advérbios de quantidade," tanto/ tão pouco". 
---Pudera-se fazer problema; onde há mais pescadores e mais modos e traças de pescar, se no mar ou na terra? E é certo que na terra. Não quero discorrer por eles, ainda que fora grande consolação para os peixes; baste fazer a comparação com a cana, pois é o instrumento do nosso caso. No mar, pescam as canas, na terra, as varas, (e tanta sorte de varas); pescam as ginetas, pescam as bengalas, pescam os bastões e até os cetros pescam, e pescam mais que todos, porque pescam cidades e reinos inteiros. Pois é possível que, pescando os homens cousas de tanto peso, lhes não trema a mão e o braço?! Se eu pregara aos homens e tivera a língua de Santo António, eu os fizera tremer.
Agora usa a expansão/ amplificação da argumentação, para demonstrar a sua tese e persuadir o auditório: «Pudera-se fazer problema.........?», terminando com uma interrogação, cuja resposta aqui é explicitada, porque pressupõe a seleção de uma de duas hipóteses: mar ou terra (disjuntiva).
E enumera, então, "torrencialmente", os exemplos, as "provas", de que a sua tese é verdadeira, usando a anáfora para a tornar mais convincente (repetição do verbo "pescam", num presente "histórico", para demonstrar que este comportamento é de todos os tempos). O ritmo da frase é binário, isto é verbo/ substantivo ( pescam- bastões, etc), usando, também, o assíndeto e gradação que culmina com a conclusão apoteótica: «pescam cidades e reinos inteiros». Todo este excerto é claramente alegórico, simbolizando o roubo e a conquista sem escrúpulos a que os homens se dedicavam (também os portugueses...), principalmente os mais poderosos, os que deviam dar exemplo de virtude, como era o caso dos senhores da Igreja e da Justiça: a crítica social é o objetivo único deste Sermão.
Finalmente, a referência habitual a santo António, que lhe inspirou este Sermão: a «língua» do santo faria «tremer» estes homens, isto é, a sua palavra faria com que as consciências despertassem.
 

outubro 20, 2012

"Epitáfio": Manuel António Pina

Manuel António Pina: 1943-2012
Não o Sonho

Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

(sublinhados meus)

in "Atropelamento e Fuga"

outubro 15, 2012

Vós sois o sal de terra: exórdio do Sermão

Vos estis sal terrae

Sé de Lamego (foto minha)
Este é o conceito predicável, isto é, a pequena frase retirada do Evangelho de S. Mateus, que servirá de Tema/Tese ao Sermão e, a partir do qual irá desenvolver a sua argumentação (início do exórdio).

Vós sois o sal da terra: os pregadores são o sal, a terra os homens.

O sal impede que os alimentos se estraguem;

Os pregadores impedem a corrupção;
Mas a terra está corrupta/ "estragada"--- de quem é a culpa?
Pode ser atribuída a duas causas: o pregador não prega em condições a palavra de Deus/ a terra não "ouve" a palavra do pregador.
O raciocínio é lógico, desenvolvido como se fosse um silogismo: premissas e conclusão. ( Todo o homem é mortal/ Sócrates é homem=» Sócrates é mortal).


Expansão/ amplificação do argumento:

Os pregadores não "salgam" porque:
  • não pregam a verdadeira doutrina; ou
  • dizem uma cousa e fazem outra; ou
  • se pregam a si e não a Cristo.   
A terra não se deixa "salgar" porque:
  • os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber; ou
  • os ouvintes querem antes imitar o que eles[pregadores] fazem, que fazer o que dizem; ou
  • os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites.
Veja-se, então:
  • a construção anafórica, "simétrica", paralelística:" ou é porque.. ou é porque...."
  • a utilização dos conectores disjuntivo e causal: "ou..ou"; "porque";
  • a antítese que se gera a partir do desdobramento das hipóteses: os pregadores não pregam# os ouvintes não "ouvem".

Toda esta argumentação foi desencadeada por uma interrogação retórica:"...qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?", através da qual capta a atenção do auditório/público, tornando-o interventor do discurso, como que apelando à sua aproximação e presença. Não esquecer que se trata de um discurso de 2ª pessoa ( pronome pessoal, plural: vós).

Termina este 1º parágrafo, em crescendo prosódico, em "euforia", novamente com uma interrogação retórica: "Não é tudo isto verdade? " para, seguidamente, na resposta, haver uma quebra rítmica com uma resposta breve, abrupta e exclamativa: "Ainda mal!"
De destacar, ainda, o uso sucessivo da vírgula, o assíndeto, que torna quase hipnótica e "pendular" a enumeração dos argumentos, num ritmo gradativo.

outubro 09, 2012

A Retórica e o Sermão

 

Eloquência é, segundo a definição comum, a arte de bem falar. O orador deverá, então, cumprir as regras da eloquência: docere, isto é, ensinar, explicando e expondo argumentos; delectare, isto é, agradar, deleitar, captando o agrado e a atenção do auditório, de modo a não causar aborrecimento; movere, isto é, comover, apelando às emoções e tentando "tocar" os sentimentos do auditório.
Na Filosofia, segundo Aristóteles, para persuadir e cativar o auditório, o orador deve ter em atenção três aspetos: o ethos, o logos e o pathos, que correspondem aos conceitos acima enunciados.
O ethos recomenda que o orador, através do seu exemplo e caráter, seja valorizado pelo auditório; o logos pressupõe que os argumentos sejam bem estruturados, fundamentando a tese apresentada, para que seja compreendida e aceite pelo auditório; e, finalmente, o pathos, através do qual o orador conseguirá sensibilizar as emoções do auditório, no sentido de provocar a sua adesão.
Verificamos, então, que estes conceitos coincidem, os primeiros do latim, os segundos do grego: logos (pensamento)--» docere(ensinar); pathos (patético)--» movere (comover); (??)ethos (ética)--» delectare(deleitar).
O padre António Vieira afirma isto mesmo, a propósito do que deve ser o comportamento do pregador, logo no exórdio, e assim vai estruturando o seu Sermão, um texto argumentativo, obedecendo às regras clássicas da Retórica:
«Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça que o pregador que ensina e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.»
.
in Sermão de santo António aos peixes, I Parte

outubro 01, 2012

Dia mundial da música

Hoje, dia 1 de outubro, comemora-se o dia mundial da música.
Escolhi, para o assinalar, um compositor português do Barroco, Carlos Seixas (1704- 1742).



No entanto, muitos desconhecem que o próprio rei, D. João IV (1604- 1656), foi também um compositor muito talentoso. Para quem o quiser ouvir:


setembro 26, 2012

O Barroco


 
Josefa De Óbidos, Transverberação de SantaTeresa
O Barroco:

-um estilo “emocional”, que pretende deslumbrar e surpreender o observador, como se de um espetáculo se tratasse;
-a decoração é exuberante
, profusa e espetacular, com o objetivo de impressionar;
--o contraste claro/ escuro pretende transmitir uma sensação de profundidade.

Josefa DeÓbidos, Cesta com cerejas queijos e barro
 
O Homem de Seiscentos (século XVII), devido a vários fatores de ordem política, religiosa e social,  vive num estado de tensão e desequilíbrio, do qual tenta evadir-se pelo culto exagerado da forma, sobrecarregando o discurso de figuras, como a metáfora, a antítese, a hipérbole e a alegoria.
O rebuscamento e o excesso de ornamentação refletem esse conflito entre o terreno e o celestial, o Homem e Deus, o pecado e a virtude, o material e o espiritual.

 

setembro 23, 2012

Atividades previstas para o 1º Período


Calendarização:

11º C:
  • Teste sumativo: 6 de novembro;
  • Apresentação dos trabalhos de grupo: 20, 22 e 27 de novembro;
  • Verificação dos Diários literários: 4 e 6 de dezembro.
11º G:
  • Teste sumativo: 6 de novembro;
  • Apresentação dos trabalhos de grupo: 23, 27 e 30 de novembro;
  • Verificação dos Diários literários: 7 e 13 de dezembro.
11º N:
  • Teste sumativo: 7 de novembro;
  • Apresentação dos trabalhos de grupo: 21, 22 e 28 de novembro;
  • Verificação dos Diários literários: 5 e 6 de dezembro.

setembro 18, 2012

Critérios específicos de avaliação

Aqui poderão consultar os critérios de avaliação da disciplina de Português e de Português Língua Não Materna(PLNM): CRITÉRIOS ESPECÍFICOS PORTUGUÊS E PLNM

Conteúdos programáticos

Fazem parte do programa da disciplina de Português, 11º ano:
  •  o padre António Vieira, com o seu Sermão  de santo António aos peixes;
  •  Almeida Garrett com o texto dramático (peça de teatro) Frei Luís de Sousa;
  •  Eça de Queirós, com o romance Os Maias;
  •  e o texto lírico, a poesia, da autoria de Cesário Verde.

No 1º período, estudaremos:
  •  o texto argumentativo literário - o Sermão do padre António Vieira;
  • e o  texto argumentativo não literário.

setembro 17, 2012

Ano letivo de 2012-2013

O mesmo blogue, a mesma professora, para  "mais um" 11º Ano. Turmas  C-G-N.

Porque, como diz Miguel Torga:

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...


Aos meus novos alunos, votos de um Bom Ano!

junho 04, 2012

Fim de Ano

Procuro despir-me do que aprendi.
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar minhas emoções verdadeiras.
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
mas um animal humano que a natureza produziu.
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
isso exige um estudo profundo,
uma aprendizagem de desaprender...


Alberto Caeiro

maio 13, 2012

maio 08, 2012

Os Maias, conclusão: capítulo XVIII

O "americano", finais do século XIX
Capítulo XVIII
  • Carlos regressa a Lisboa, após uma ausência de dez anos e passeia com Ega pela capital;
  • esse passeio revela que tudo permanece na mesma, principalmente as pessoas: ociosas, “moços tristes”, “mocidade pálida”(p 702);
  • voltam ao Ramalhete, agora abandonado, e embora reste uma sensação de falhanço, não há qualquer sentimento de remorso em Carlos.

Comentário:

  • tempo cronológico: elipse e prolepse (omissão de acontecimentos e consequente avanço no tempo, 10 anos);
  • tempo psicológico: “Só vivi dois anos nesta casa, e é nela que me parece estar metida a minha vida inteira!” (p 714);
  • espaço físico: Lisboa e os vários locais por onde vão passeando: o Loreto, o Chiado, Rua Nova do Almada, a Avenida, o Ramalhete;
  • espaço social: as pessoas que “povoam” esses espaços: “vadios, de sobrecasaca, politicando..”(p 697); “Uma gente feiíssima, encardida, molenga, reles, amarelada, acabrunhada!...” (p 697);
  • espaço psicológico: o Ramalhete abandonado: “ Em baixo, o jardim[…] tinha a melancolia de um retiro esquecido, que já ninguém ama[…]”.(p 710);
  • as personagens reconhecem o falhanço: “- Falhámos a vida, menino!”(p 713). E, de acordo com o Realismo/Naturalismo, isso deve-se à ociosidade, ao tédio, à degradação moral, ao Romantismo, à religião, à educação. E ambos, Ega e Carlos, o “escritor” e o médico falhados, correm apenas para o que sempre tinham “corrido” na vida: para chegarem a tempo do jantar, isto é, a satisfação das suas necessidades primárias e básicas. Porque nunca tinham lutado “- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder…”(p 716).

maio 02, 2012

Os Maias: capítulos XIII a XVII

Capítulo XIII
  • Carlos leva Maria Eduarda à «Toca», a casa dos Olivais;
  • descrição da decoração do quarto;
  • ruptura de Carlos com a Condessa de Gouvarinho.
Comentário:
  • alguns pormenores da decoração do espaço são presságios: “[…]os amores de Vénus e Marte[…]” (p 433); “[…] o leito de dossel[…] como erguido para as voluptuosidades grandiosas de uma paixão trágica[…]” (p 434); “[…] uma cabeça degolada, lívida, gelada no seu sangue, dentro de um prato de cobre.” (p 434); “[…] uma enorme coruja empalhada[…]” (p 434);
  • o espaço físico é, assim, transformado em espaço psicológico: “Mas Maria Eduarda não gostou destes amarelos excessivos.[…] achava impossível ter ali sonhos suaves.” (p 434).
Capítulo XIV
  • Maria Eduarda vai ao Ramalhete;
  • Castro Gomes, seu suposto marido, vai ter com Carlos, mostrando-lhe uma carta anónima, mas avisando-o de que não são casados;
Comentário:
  • aparece mais um presságio: Maria Eduarda, quando vê o retrato do pai do Carlos, comenta que o acha parecido com sua mãe.
Capítulo XV
  • Maria Eduarda conta a Carlos a sua infância e juventude e, perante a revelação de um passado tão amargo, Carlos decide casar com ela;
  • um jornal, a “Corneta do Diabo”, publica um artigo anónimo onde Carlos é ultrajado numa linguagem quase obscena;
  • Ega suborna o diretor do jornal, Palma Cavalão, que lhe revela que o autor do artigo foi o Dâmaso;
  • Ega obriga-o a escrever uma carta onde ele se confessa um alcoólico inveterado, vítima de um vício hereditário; deste modo, Ega aproveita também para se vingar do facto de Dâmaso lhe ter “roubado” a Raquel Cohen.
Comentário:
  • analepse: recuo ao passado de Maria Eduarda;
  • crítica ao “jornalismo” de pasquim e a quem se deixa subornar para publicar seja o que for;
  • crítica à cobardia de Dâmaso;
  • influência do Realismo/Naturalismo, quando se refere à hereditariedade (o suposto alcoolismo de Dâmaso).
Capítulo XVI
  • episódio do Sarau do Trindade, onde, mais uma vez, desfilam as várias personagens-tipo;
  • o Sr. Guimarães chega de Paris e revela a Ega que Maria Eduarda e Carlos são irmãos, o que pode comprovar com os documentos que guarda num cofre.
Comentário:
  • Crítica social: todos discutem desordenadamente e todos se querem mostrar, mas a ignorância e o provincianismo vêm ao de cima, quando uma das senhoras nem sequer sabe quem foi Beethoven e fala da “Sonata Pateta”(Patética).
  • Este é um dos capítulos mais importantes da intriga, porque nele se encontra o momento da agnórise, o reconhecimento (influência da tragédia grega) e que já se fizera “anunciar” por vários presságios ao longo da narrativa.
  • O tema é o incesto, a relação tabu e proibida entre dois irmãos, vítimas de circunstâncias que desconheciam, vítimas inocentes dos atos dos progenitores (neste caso, a mãe, Maria Monforte).
  • Os dois níveis da acção aqui “cruzam-se”, porque o incesto é motivado por causas que são também alvo da crítica social nos romances Realistas/Naturalistas: o comportamento adúltero das mulheres, a influência negativa do Romantismo.

Capítulo XVII
  • é revelada a Carlos a verdade;
  • Carlos, por sua vez, conta também ao avô;
  • vai a casa de Maria e dorme com ela, mesmo já sabendo que é sua irmã;
  • Afonso morre;
  • os irmãos, inevitavelmente, separam-se e partem para o estrangeiro.
Comentário:
  • É o momento da katastrophé (catástrofe), quando as consequências terríveis se abatem: Afonso, que resistira a tantos desgostos de família, sucumbe.
  • É ele, verdadeiramente, a vítima inocente.
  • Morre a personagem que se mantivera, ao longo de toda a vida (e narrativa), coerente, genuína, verdadeiramente “civilizado”.

abril 17, 2012

Os Maias: capítulos VII a XII




Corridas no hipódromo de Belém - último quartel do séc. XIX
in:Iconografia de Os Maias
VII Capítulo
• Dâmaso Salcede, personagem tipo, que representa o novo-rico, consegue apresentar-se a Carlos, mas também tornar-se indesejável, devido ao seu comportamento exibicionista;
• a Condessa de Gouvarinho visita Carlos no consultório;
• informações dos amigos a Carlos sobre a misteriosa mulher que tanto o impressionara.

Comentário:
• Capítulo que remete, sobretudo, para a crítica social.

VIII Capítulo

• Carlos e Cruges vão a Sintra à procura da “Mulher”;
• encontram Eusebiozinho, já viúvo, com um amigo e duas prostitutas espanholas;
• Carlos tem notícias dessa mulher, casada, e de quem o Dâmaso já se tornara muito amigo.

Comentário:

  • crítica ao comportamento previsível de Eusebiozinho: a educação religiosa, “beata”, desencadeia atitudes de hipocrisia e de degradação moral.

IX Capítulo

• alguns pormenores que se integram no domínio da crítica social, sobretudo o comportamento das mulheres.

Comentário:

• mais uma vez, a crítica às mulheres da alta burguesia lisboeta.


X Capítulo
• destaca-se o episódio da corrida de cavalos e a atitude dos portugueses que frequentam esse tipo de evento social;
• tal como no jantar do Hotel Central, tudo termina com uma desordem pouco adequada à situação e ao estatuto social de quem está presente.

Comentário:

• crítica ao modo como as pessoas se apresentavam, sobretudo as mulheres, com “vestidos de missa”(p 316), uma vez que não estavam habituadas a este género de evento, tipicamente inglês: “um canteirinho de camélias meladas”(p 317);
• Afonso da Maia, na sua posição distanciada, já comentara que “o verdadeiro patriotismo[...] seria, em lugar de corridas, fazer uma boa tourada.”(p 308);
• crítica aos portugueses que têm o hábito de imitar o que era estrangeiro, mas, como não era genuíno, “desmanchando a linha postiça de civilização e a atitude forçada de decoro…” (p 325);
• caracterização do espaço social.

Capítulo XI

• Carlos, pela primeira vez, fala com "a tal" mulher, Maria Eduarda, passa a visitá-la com assiduidade e trocam confidências;
• percebe que Dâmaso, supostamente, como já lhe tinham dito, se tinha tornado, também, íntimo da casa.

Comentário:

• a semelhança dos nomes, Carlos Eduardo e Maria Eduarda: “Quem sabe se não pressagiava a concordância dos seus destinos!” (p 346);
• Maria repudia Dâmaso, o que explica comportamentos posteriores.


Capítulo XII
• Carlos e Maria Eduarda tornam-se amantes;
• Carlos aluga a Craft a casa dos Olivais, "A Toca", onde poderão viver, discretamente, a sua paixão.

Comentário:

• momento da intriga em que as personagens desafiam o Destino, hybris, ignorando, como nas tragédias, quem são e as consequências futuras. 

abril 11, 2012

Capítulo VI: Os Maias

Hotel Central, Praça Camões
 
VI Capítulo

  • jantar de homenagem a Cohen (o banqueiro judeu) no Hotel Central;
  • Carlos cruza-se com uma bela desconhecida quando entra no Hotel;
  • nesse jantar revelam-se outras personagens “tipo”: Alencar, poeta Ultra-Romântico, que tinha sido amigo dos pais de Carlos; o Craft, um inglês que há muito vivia em Portugal; Dâmaso Salcede, o novo-rico;
  • o jantar termina com uma briga;
  • já em casa, Carlos recorda o passado,como ficara a conhecer a história da mãe e do pai e adormece, evocando a visão da mulher que tanto o tinha impressionado. ......................................................................................................................................
Comentário:

Este é um dos Capítulos mais importantes, porque nele se cruzam os dois níveis da obra: o da intriga e o da crónica de costumes.

A intriga:
  • presságios: Ega, em conversa com Carlos (antes do jantar) diz-lhe que ele há-de vir a “acabar desgraçadamente[…] numa tragédia infernal”( p 152);
  • a mulher com quem Carlos se cruza é como uma “deusa” envolta em mistério (p 157);
  • no final do Capítulo, o sonho de Carlos, após ter recordado o seu passado familiar, remete para esta mulher, sonho premonitório.
A crónica de costumes:
  • o comportamento e a linguagem pouco adequados da alta burguesia lisboeta que quer parecer muito civilizada e cosmopolita;
  • a oposição entre o Ultra-Romantismo retrógrado(Alencar) e o Realismo/Naturalismo(Ega), ambos exagerados.
  • espaço social: o Hotel Central, onde desfila esta galeria de tipos sociais.

abril 09, 2012

Recomeço: Os Maias, continuação. Capítulos II a V

Rua das Janelas Verdes
in Iconografia queirosiana
II Capítulo:
  • casamento de Pedro e Maria Monforte (“felicidade de novela”);
  • os dois filhos, Maria Eduarda e Carlos Eduardo;
  • fuga de Maria com o príncipe italiano, levando consigo a filha;
  • Pedro fica com o filho, regressa a casa do pai e suicida-se.
Comentário:
  • a crítica ao comportamento das mulheres: Maria foge, devido à leitura de romances românticos, que deturpavam a visão que as mulheres tinham da realidade;
  • até o nome do filho, Carlos Eduardo, tinha sido escolhido por ser o de um herói de um romance, com uma vida de "aventuras e desgraças" (presságio);
  • Pedro suicida-se, como era de esperar, devido ao seu temperamento neurótico (hereditariedade) e educação tradicional, “beata”.

III Capítulo:
  • Afonso retira-se para Santa Olávia com o neto e, aí, tem a preocupação de lhe dar uma educação à inglesa: ar livre, ginástica, inglês (“mente sã em corpo são”);
  • em oposição, a educação de Eusebiozinho, tradicionalmente portuguesa e “beata”.

Comentário:
  • a oposição entre os dois tipos de educação revela, mais uma vez, a crítica à educação tradicionalmente portuguesa.
IV Capítulo:
  • Carlos vai estudar para Coimbra, forma-se em Medicina;
  • torna-se amigo de João da Ega, o "escritor", personagem que representa o Realismo/Naturalismo;
  • quando acaba o curso, viaja pela Europa e o avô já o esperava em Lisboa, no Ramalhete;
  • o consultório é mobilado luxuosamente;
  • Ega prepara o seu grande livro, Memórias de Um Átomo.
Comentário:
  • termina a analepse que se iniciara no I Capítulo e o tempo cronológico volta a ser 1875;
  • alguns pormenores são já significativos em termos de crítica e de caracterização da personagem: o luxo excessivo do consultório de Carlos não se coaduna com o exercício da Medicina;
  • Ega começa a escrever o livro de que se falava desde os seus tempos de estudante (será que alguma vez vai terminar essa “Bíblia”?).
V Capítulo:
  • O Ramalhete e a vida social da família Maia e da alta burguesia de Lisboa: espaço social;
  • apresentação de várias personagens “tipo”: o Cruges, pianista falhado; Steinbroken, o embaixador finlandês; a Raquel Cohen, amante do Ega; a Condessa de Gouvarinho que Ega “recomenda” a Carlos.
Comentário:
  • a crítica social torna-se mais corrosiva, em particular, no que diz respeito ao comportamento das mulheres (o adultério);
  • as causas são: a leitura de romances românticos, a ociosidade e consequente tédio.

março 20, 2012

Primavera



  [...]
"Todos sabem que uma flor é uma flor e uma árvore é uma árvore.
Mas eu respondi, nem todos, ninguém.
Porque todos amam as flores por serem belas, e eu sou diferente.
E todos amam as árvores por serem verdes e darem sombra, mas eu não.
Eu amo as flores por serem flores, directamente.
Eu amo as árvores por serem árvores, sem o meu pensamento."

Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa)

março 12, 2012

Ler Os Maias: I capítulo

I Capítulo:

Espaços: Santa Olávia (espaço rural), Lisboa (espaço urbano).

Tempos:

- Presente: Outubro de 1875;

- Passado: analepse (recuo no tempo) à juventude de Afonso da Maia. Casamento com Maria Eduarda Runa, nascimento do filho, o Pedrinho, ida para Inglaterra; regresso a Portugal, morte da mulher e juventude de Pedro até ao seu casamento, contra a vontade do pai, com Maria Monforte.

Temática importante:
  • A crítica à educação tradicional/religiosa ("beata"), que contribui para deformar a personalidade dos indivíduos (ex: Pedro da Maia);
  • Os excessos, de todo o género, que esse tipo de educação e uma sociedade romântica fomentam (Pedro da Maia);
  • O pragmatismo “inglês” de Afonso da Maia, no que diz respeito à educação e à religião; oposição Afonso/Pedro: força/fraqueza;
  • A ascensão social dos novos-ricos: Maria Monforte e o pai, muitas vezes, através de meios pouco sérios (tráfico de negros);
  • A caracterização de Pedro da Maia, cuja personalidade se deve aos fatores antes referidos e a que se acrescenta o da hereditariedade (influência do Naturalismo);
  • O aparecimento de presságios, desde o início:
  1. A família tinha poucos elementos( só avô e neto);
  2. O Ramalhete sempre tinha sido “fatal” à família Maia;
  3. Pedro era parecido com um bisavô materno que se tinha suicidado;
  4. Maria Monforte era de uma beleza clássica, magnífica, comparada à das estátuas gregas;
  5. A sombrinha escarlate de Maria “derramava” como que uma mancha de sangue sobre Pedro.

Linguagem e recursos estilísticos:
  • A adjetivação com a intenção de descrever pormenorizadamente (característica do Realismo): [Pedro era] “mudo, murcho, amarelo…”(Capt I, p 20);A ironia para acentuar a crítica social, nomeadamente, o uso dos diminutivos: [Pedro] “ aos dezanove anos teve o seu bastardozinho.”(Capt I, p 20);
  • O advérbio de modo com uma função adjetivante: [Afonso] “esteve olhando abstraidamente a quinta…” (Capt I, p 31);
  • A sinestesia ( sugere sensações várias): “ Os passos do escudeiro não faziam ruído no tapete fofo; o lume estalava alegremente, pondo retoques de oiro nas pratas polidas;” (audição, tato, audição, visão)-(Capt I, p 31);
  • A comparação: “…e a sua face [de Maria Monforte], grave e pura como um mármore grego…” (Capt I, p 29);
  • A metáfora: [Maria Monforte]"... arrastando com um passo de deusa a sua cauda de corte…" (Capt I, p 23).

Nota: A paginação remete para a obra na sua edição de Os Livros do Brasil.

março 07, 2012

Ida ao teatro, mais uma vez...

Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra: representação de Os Maias. Texto de difícil de adaptação ao teatro.


Poucos atores em palco, cumpre, no entanto, a sua função: motivar à leitura da obra.


Poucos alunos da A.A. também presentes.  Mas eram os mais  informados, críticos, atentos, maduros.

fevereiro 12, 2012

Frei Luís de Sousa: III Ato

Espaço: "parte baixa do palácio de D. João de Portugal", Almada; "casarão" despojado de ornamentos, apenas com cruzes, tocheiras e outros objetos religiosos.
Tempo: "alta noite".

Topoi ("tópicos"):

  • Descrição dos acontecimentos recentes que provocam as mudanças repentinas ( e inesperadas?) que ocorreram na vida da família: Manuel, pela primeira vez, mostra-se angustiado, revoltado, mas também conformado com a decisão irreversível que tem de tomar. Em diálogo com seu irmão, Frei Jorge (confidente), reflete sobre a desonra que se abateu sobre si próprio, sobre a família e, sobretudo, sobre sua filha, Maria, a vítima inocente.
  • A "morte para o mundo": separação do casal e ida para o convento, porque só a entrega a Deus pode redimir o seu pecado e só em Deus podem encontrar a resignação.
  • Agravamento da doença de Maria: referência explícita ao "sangue em golfadas", sintoma da tuberculose.
  • Os pressentimentos/presságios cumprem-se: Telmo reconhece que, embora sempre tenha desejado o regresso de seu amo, agora o repudiaria, se fosse possível; a separação de D. Joana e marido, que Maria admirava, está também prestes a atingir seus pais.
  • Expressão de sentimentos contraditórios: Telmo "escolhe" Maria a quem já ama mais que a D. João de Portugal.
  • Reconhecimento indiscutível do Romeiro: ele é D. João de Portugal.
  • Tentativa, ainda que vã, de alterar o curso dos acontecimentos: no entanto, as consequências terríveis e trágicas são, agora, inevitáveis.
  • Morte de Maria em palco, "de vergonha".
  • Redenção do pecado e da desonra de Madalena e Manuel: consagração a Deus, entrada no convento.

    --Romantismo: espírito cristão, crença de que só em Deus é possível encontrar a salvação: a "morte para o mundo"; a emotividade, agora "irracional", de Manuel; a contradição de sentimentos em Telmo;os pormenores mórbidos relacionados com a doença de Maria; a morte "espetacular" desta personagem em palco. A expressão de sentimentos, através da linguagem e do estilo, acentua-se: interjeições, frases inacabadas, frases exclamativas, apóstrofes, hipérboles...

    Classicismo: momentos que marcam o final da tragédia.

    Vide: mudança súbita dos acontecimentos(peripateia); impossibilidade de os alterar, porque eles sempre se "anunciaram"(presságios) como inevitáveis; o crime cometido não pode passar sem castigo e atinge, não só quem o praticou(Manuel e Madalena), como também a vítima inocente, Maria: a katastrophe.

janeiro 31, 2012

Nota pessoal

Não é habitual eu escrever neste registo pessoal, neste blogue. Mas também não é habitual- e muito menos nos tempos que correm!- no final da  aula, os alunos dizerem: "Obrigada, professora".

Palavras singelas, mas sentidas, tal como esta nota que deixo aqui para assinalar.

janeiro 30, 2012

Frei Luís de Sousa, II Ato

Frei Luís de Sousa, II Ato
 
Espaço: Almada, "palácio que fora de D: João de Portugal"; "salão antigo, de gosto melancólico e pesado"; retratos vários, destacando-se os de D. Sebastião, Camões e D. João de Portugal.

Tempo: oito dias depois do incêndio do palácio de Manuel de Sousa; sexta-feira, dia do aniversário do primeiro casamento de Madalena, data que coincide com o primeiro encontro dela com Manuel de Sousa e com o dia em que D. João de Portugal desapareceu em Alcácer-Quibir.
Topoi("tópicos"):
  • A curiosidade precoce de Maria continua a manifestar-se a propósito da identidade dos retratos: em diálogo com Telmo, este vai-lhe falando de D. Sebastião e de Camões, mas evita revelar-lhe quem é o terceiro.
  • O Sebastianismo/Nacionalismo: recusa em acreditar que D. Sebastião tenha morrido, porque significaria a permanência do domínio castelhano em Portugal.
  • Idealização da figura do "poeta desgraçado", Camões: Telmo afirma ter sido seu amigo, falando da sua morte prematura, na miséria, e do esquecimento a que a sua obra foi votada.
  • Referência (premonitória) a D. Joana e seu marido, que se separaram para seguirem a vida monástica: Maria revela admiração por esta escolha que considera muito corajosa.
  • Os sintomas da doença de Maria são referidos frequentemente: a febre.
  • A interpretação simbólica da destruição do retrato de Manuel de Sousa, no incêndio: perturbação crescente de Madalena, que acredita que é um sinal de que algo de funesto vai acontecer.
  • Revelação da identidade do retrato de D. João de Portugal: Manuel de Sousa, serenamente, di-lo a sua filha.
  • Os terrores de Madalena acentuam-se: o marido, a filha e Telmo vão a Lisboa, deixam-na com os seus "espectros" e maus pressentimentos, ficando com ela apenas Frei Jorge.
  • A figura misteriosa e ameaçadora do Romeiro: a sua chegada é anunciada por Miranda.
  • Revelação "dúbia" da identidade do Romeiro, após um diálogo em ansiedade crescente entre ele, Madalena e Frei Jorge: "Ninguém!
-- Romantismo: a presença ameaçadora e "agoirenta" dos retratos, os espectros; o Sebastianismo e o nacionalismo; referência à figura "marginalizada" e incompreendida de Camões; a doença e impulsividade de Maria; a sensibilidade doentia e as superstições de D. Madalena, nomeadamente, a propósito da "sexta-feira"; o mistério que se adensa ao longo  do II Ato. A linguagem emotiva continua a refletir os estados de espírito das personagens.
 
-- Classicismo: continuação dos momentos que caracterizam a tragédia:
 
Vide: a aflição de Madalena vai-se acentuando(o pathos); em breve se assistirá a uma mudança repentina da acção (a peripateia); o momento do "reconhecimento" (anagnorise) desencadeado por alguém que vem "de fora", o Romeiro, e anunciado pelo "mensageiro da desgraça", Miranda. Manuel continua a revelar-se sensato, racional, assim como seu irmão, Frei Jorge.