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novembro 26, 2012

Para ler e ...refletir

Do Sermão de Santo Antônio aos Peixes, V Parte

O Polvo:

Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo: e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro.
 
De Sophia de Mello Breyner, um poema:
 
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
 
(sublinhados meus)

novembro 24, 2011

Trabalhos dos alunos

Desenho da aluna
Perspetiva de um Escravo Negro do Século XVII
Venho discutir o que já muito foi discutido por anteriores maiores que eu, cujo assunto é, de acordo com o Papa Pio II, magnum scelus, um grande crime. Se escrevo, agora, este texto, foi porque meu senhor, a quem ainda quero muito, me ofereceu a língua e a escrita daqueles que me roubaram a terra que devia pisar e que já não piso. E inúmeros são aqueles que, tendo sido furtados da sua terra, também já não podem pisar aquele que devia ser seu piso. Concedeu-me a liberdade, o meu senhor, horas antes de partir, quando, com um pano molhado em devoção, lhe limpava a fronte fervente. Mas há quem, só com a morte, consiga essa mesma libertação.
Se Deus dita este trágico destino que é serventia a quem mais paga pelo nosso laborar, mas não ao trabalhador e sim àquele que nos mercou, não somos nós mais que animais pertences do homem? Se assim é, do mesmo modo se justifica a nossa falta de salário após toda uma vida de escravo dedicado, pois quem paga moedas de oiro ao boi que ara o terreno?
Mas onde estão os chifres que eu não os posso ver, e o pesado andar bovino de quem não pode amar ou odiar o seu dono, de quem não pode beijar os anéis da mão do amo, ou fugir da sua cativa prisão? Não somos nós bois ou jumentos para ser tratados como seu igual.
Então porque somos mercadoria do ladrão que nos rapta daquele (África) que é nosso lar de origem? Porque somos forçados a pisar a mesma terra que o usurpador? Apenas porque não outra há para pisar, porque a nossa fica para lá desse mar.
Tal como vocês, que seguram o chicote, também gatinhamos à nascença, para depois, passarmos a enfrentar o mundo erguidos, também bebemos a mesma água, também olhamos as mesmas estrelas, também choramos as mesmas lágrimas salgadas de dor e de felicidade, e se pegaram no punhal e nos marcarem a pele com golpes (o que certamente muitos já fizeram) verão que o sangue que escorre da ferida é tão vermelho como o vosso. Pergunto, então, porque se dão os acontecimentos antitéticos a que somos expostos todos os dias. Porque se cobre o senhor de colares e pratas, quando o único metal em que tocamos é o das correntes que adornam os nossos pescoços? Porque comem os senhores as iguarias que, sendo património da nossa terra, nem a nós é concedido o direito de as provar? Porque veste o senhor tecidos e roupagens do mais caro linho fiado, quando nós não envergamos mais que o ar que respiramos? Porque, cometendo o senhor os mesmos pecados, não é ele castigado da mesma maneira que nós?
E mais, porque defendem os padres e pastores os nossos irmãos índios (irmãos, porque todos somos filhos do mesmo Adão e da mesma Eva) que sofrem o mesmo destino, mas que parecem merecer mais cuidado? Somos pois indignos demais para que, já que não nos conseguindo fazer ouvir sozinhos, alguém nos ajude a acordar o mundo desta injusta dormência? Será pois esta cor escura, que a diziam tão exótica os primeiros brancos ao avistarem  África, a marca da nossa maldição, e a dos nossos filhos e a dos nossos avós? 

  Nenhum senhor devia ter escravos, porque senhor a quem todos os homens, sem ressalvas, devem servir, só há um, e esse se senta na sua cátedra celeste...

Da Alice, 11º B

novembro 14, 2011

Trabalhos de grupo

Os trabalhos sobre temas relacionados com os Direitos Humanos ou outros que reflitam outras problemáticas controversas da atualidade serão apresentados por grupos constituídos por 2/3 alunos; cada apresentação, seguida de debate, terá a duração de 30 minutos.
 
 

Desses trabalhos constará um texto argumentativo, ilustrado com qualquer outro suporte: powerpoint, filme, fotografias.....

As datas de apresentação são as seguintes:
  • 11ºB: 30 de novembro, 5 e 7 de dezembro.
  • 11ºC: 30 de novembro, 5 e 7 de dezembro.
  • 11ºF: 29 de novembro, 6 e 13 de dezembro.

outubro 31, 2011

Digno de reverência ou merecedor de desprezo?

Não compreendo.
Nasce o sol e não dura mais que um dia, depois nasce a lua e não dura mais que uma noite e isto repete-se dia e noite. Com o sol que nasce vem a luz, e com a lua que nasce vai-se a luz e vem a escuridão, e à medida que nós peixes nos abrigamos dos males e juntos nos mantemos, aqueles homens cuja função deveria ser salgar a terra não a salgam, não porque esta não se deixa salgar, mas porque se traderem e falseiam uns aos outros, e nesta deslealdade não têm tempo para cumprir as missões que lhes foram atribuídas.
Padre Vieira já desistiu destes figadais, agora basta rezar para que eles não desistam deles mesmos do mesmo modo que já desistiram uns dos outros, estes sermões que eu e os meus outros companheiros peixes estamos há tanto tempo a audire deveria ter sido auscultado por eles que tanto dizem ser crentes e protegidos por uma entidade sagrada, mas sempre se deslembram que muito antes destes terem existência já nós peixes cá nadávamos nos nossos oceanos, mares, lagos e rios ou ribeiras, sendo as nossas casas todos os fios de àgua que correm vivos nesta terra.
O Sermão de Santo António patenteou-me a ver aquilo que os meus pequenos olhos de peixezinho não viam antes. Não acredito em altas igrejas a tentar alcançar o divino céu ou rezas e preces a luzes sagradas que passam como se por magia pelos vitrais em forma de um todo poderoso Deus. Ainda assim nada posso contestar, não porque não queira pois quero, mas porque não posso, pois por não ser um homem nada tenho com que dizer o que desgosto. Louva-me Santo António por nada dizer, ao passo que se pudesse nada deixava por ser dito.
 Louvar as virtudes (bens) e repreender os vícios (males).
Meus bens e do resto dos peixezinhos ao sermos bons ouvintes e nada termos a comentar.
Males dos humanos sobretudo por escravizarem o homem negro e tentarem o mesmo com os índios, também mentirem, roubarem e matarem-se uns aos outros sem qualquer pudor.
 Não sei qual a moral que tenho para pensar deste modo sendo um simples peixezito, mas depois de ver algo desta gravidade apoio o que santo António fez deixando as praças e indo as praias, deixando a terra e indo ao mar. Digno de reverencia ou merecedor de desprezo é este tão poderoso Homem que não prega a doutrina e serve os seus apetites?

Do Alexander, 11ºC